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Nos últimos tempos temos vivido um surto gritante de insegurança na cidade. A
preocupação com a questão da segurança ultrapassou aquela de encontrar um emprego,
aliás, razão mais do que suficiente, porque os vivos podem trabalhar, aqueles que
estão em boas condições físicas podem trabalhar. A periferia criou novas leis e é na base
destas leis que todo o mundo vive: a lei do medo, a lei do estar-sem-estar, enfim, a lei do
aprisionamento na liberdade. Parece que a periferia tomou conta da cidade, porque
provavelmente poucas vezes ela foi escutada sem o entardecer do verniz. O infractor é
visto como periférico e como delinquente e esquecemos que a própria cidade pode ser
periférica a partir do momento que não responde às expectativas da cidade. Nenhum
cidadão espera do político (salvo aquele que é tremendamente ingénuo) a honestidade, a
integridade ou honradez, porque também ele sabe que não tem todas estas qualidades,
aliás, não tem e parece que não lhes preocupam tanto, desde que os seus problemas sejam
resolvidos. E, é isso que ele espera do político. Espera que este resolva os seus problemas
e a insegurança é um destes problemas que ele espera que o político resolva. A não
resolução do problema também conduz à cidade na linguagem periférica, naquilo que não
é o centro, não está no centro e não faz o centro, não é tão importante quanto o centro.
Nunca nos perguntamos se os verdadeiros delinquentes são aquelas pessoas que violam
as leis da cidade de modo explícito, porque invadem as nossas casas, porque apropriam-
se dos nossos bens dentro e fora de casa. Provavelmente não sejam os verdadeiros
delinquentes. Porque os piores delinquentes podem ser aqueles que não têm a consciência
trágica, não têm consciência infeliz, como diz Spinoza. Dormem, mas dormem porque
As Leis Da Periferia E A Cidade Filosófica
The Laws of the Periphery and the Philosophical City
Las Leyes de la Periferia y la Ciudad Filosófica
Les Lois de la Périphérie et la Cité Philosophique
Inácio Valentim
0000-0001-6207-0280
Doutor. Instituto Superior Politécnico Sol Nascente. Huambo. Angola
Inaciovalentim82@gmail.com
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não pensam nos outros, porque não se revêem nos outros e porque criaram uma
legitimidade própria para a sua forma de violência e nisto se parecem com os proponentes
da violência periférica. De modo que, o genealogista pode salvar a cidade das suas
duas violências: a violência daqueles que estão estampados como violentos e a violência
daqueles que dormem apesar de serem tremendamente violentos. O genealogista é o
filósofo, diz o Nietzsche de Foucault e de Deleuze, mas não aquele filósofo que aceita
que todo o mundo olhe para ele como aquele que reflecte nas coisas ou que medita nas
coisas, como se as outras áreas do saber não reflectissem, não meditassem. O genealogista
é aquele que traz um começo, que “cria um começo” e que reinventa um começo a partir
da dor e da cura. A cidade deve ser filosófica não para fazer aquilo que já foi feito, aquilo
que foi criado. O genealogista não pode aceitar os conceitos que servem apenas para
o” limpar e fazer brilhar” numa falsa luminosidade. O genealogista deve dar a cidade o
entendimento do entristecimento. O genealogista enquanto educador não traz apenas a
reflexão e a contemplação, traz sobretudo para a cidade o entristecimento porque vem
para dizer aos outros aquilo que eles não querem ouvir, vem para dizer aquilo que mais
ninguém diria. É por isso que a resposta filosófica deve ser dura contrariamente às outras
áreas do saber, porque é uma resposta que consiste no entristecimento. A filosofia como
educação encara um entristecimento, mas um entristecimento alegre porque conduz à
libertação. Ela oferece-nos a possibilidade de perguntarmo-nos, o que somos, o que
fazemos e se a nossa resposta for honesta connosco mesmo poderemos fazer um bom
trabalho para a cidade. O genealogista é um incomodador, só pode incomodar e só deve
incomodar para a libertação, tem que proporcionar aos outros um comportamento de
Lisias de Fedro. Ter vergonha do que se pensa saber.
Por último, dizer que esta 13ª edição contém alguns artigos publicados na revista
OPINIÃO FILOSÓFICA da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(PUCRS), traz as mais variadas reflexões no âmbito académico-científico.
A este respeito o Professor Flaviano Kambalu reflecte sobre o conceito de pessoa, a sua
complexidade e a sua relação com a unidade africana. Tenta encontrar os princípios e os
fundamentos metafísicos que podem sustentar a possibilidade da união.
O Dr. Nlando Faustino reactualiza ao histórico pensador das independências sua
maneira) Frantz Fanon. Através da obra “Os condenados da terra” de Fanon, faz uma
leitura desconstrutivista da colonização vista como uma oportunidade para a civilização.
Recusa com Fanon, a ideia de que a “colonização igual a civilização e paganismo igual a
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selvageria” e defende precisamente a ideia da despersonalização imanente do processo
colonializador.
Por sua vez, Inácio Valentim lança a interrogação sobre a educação e o processo educativo
liberal em África. Discute a ideia da possibilidade de educar e com quem ser educado.
Os Doutores Abel da Silva e Irene Moisés Ináculo pensam a educação desde a perspectiva
não universitária a partir do cunho da lei. Procuram compreender e destacar a
negatividade de uma intervenção excessiva dos elementos não autorizados no processo
educativo.