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DATA DA RECEPÇÃO: Fevereiro, 2018 | DATA DA ACEITAÇÃO: Maio, 2018
Resumo
A vocação à unidade é uma característica natural da pessoa humana porquanto esta é
essencialmente livre, relacional e dialogante. A África é um complexo e heterogéneo
mosaico de povos, línguas, raças, culturas, etnias e religiões, cujo fundamento metafísico
de origem representa uma unidade indivisível na realidade histórica. O fundamento
metafísico de origem é importante porquanto em todos os campos tudo o que une os seres
humanos é mais forte do que o que os separa. Nisto, o diálogo é necessário para superar
os preconceitos e desentendimentos históricos, as divisões, intolerâncias e
fundamentalismos que infelizmente se vão intensificando na actualidade. O diálogo,
conducente à unidade, não obriga, mas se move no respeito da liberdade da pessoa e da
soberania de cada Estado. Enfim, trata-se de um diálogo sincero e fecundo que
reconhecendo toda a legítima diversidade promove o respeito, a concórdia e a
colaboração.
Palavras-chave: Pessoa humana, África, Fundamento Metafísico, Fundamento Metafísico
e Diálogo.
Abstract
The vocation to unity is a natural feature of the human because it is essentially free,
relational and dialoguing. Africa is a complex and heterogeneous mosaic of peoples,
O Conceito de Pessoa e a Metafísica da Unidade Africana
The Concept of Person and the Metaphysics of African Unity
El Concepto de Persona y la Metafísica de la Unidad Africana
Le Concept de Personne et la Métaphysique de L'unité Africaine
Flaviano Lourenço Kambalu
0000-0003-4176-2848
Doutor. Universidade Katiavala Bwila. Benguela. Angola
fundileko@hotmail.com
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languages, races, cultures, ethnic groups and religions, whose metaphysical foundation
of origin represents an indivisible unity in historical reality. The metaphysical basis of
origin is important because in all fields everything that unites human beings is stronger
than what divides them. In this, dialogue is necessary to overcome the historical
prejudices and disagreements, the divisions, intolerances and fundamentalisms that
unfortunately are intensifying at the present time. The dialog, leading to the unit, doesn’t
oblige, but moves in respect of freedom of the person and of the sovereignty of each State.
At last, it is a sincere dialog and fruitful that acknowledging all the legitimate diversity
promotes respect, harmony and collaboration.
Keywords: The Human Person, Africa, Metaphysical foundation, Metaphysical
foundation and Dialogue.
Resumen
La vocación a la unidad es una característica natural de la persona humana, que es
esencialmente libre, relacional y dialogante. África es un mosaico complejo y
heterogéneo de pueblos, lenguas, razas, culturas, etnias y religiones, cuyo fundamento
metafísico de origen representa una unidad indivisible en la realidad histórica. El
fundamento metafísico del origen es importante porque en todos los ámbitos lo que une
a los seres humanos es más fuerte que lo que los separa. En este sentido, el diálogo es
necesario para superar los prejuicios y los desacuerdos históricos, las divisiones, las
intolerancias y los fundamentalismos que, desgraciadamente, se intensifican hoy en día.
El diálogo, que conduce a la unidad, no obliga, sino que se mueve en el respeto a la
libertad de la persona y a la soberanía de cada Estado. Por último, es un diálogo sincero
y fructífero que, reconociendo toda la diversidad legítima, promueve el respeto, la
armonía y la colaboración.
Palabras clave: Persona humana, África, Fundamento metafísico, Fundamento metafísico
y diálogo.
Résumé
La vocation à l'unité est une caractéristique naturelle de la personne humaine, qui est
essentiellement libre, relationnelle et dialogique. L'Afrique est une mosaïque complexe
et hétérogène de peuples, de langues, de races, de cultures, d'ethnies et de religions, dont
le fondement métaphysique de l'origine représente une unité indivisible dans la réalité
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historique. Le fondement métaphysique de l'origine est important car dans tous les
domaines, tout ce qui unit les êtres humains est plus fort que ce qui les sépare. À cet égard,
le dialogue est nécessaire pour surmonter les préjugés et les désaccords historiques, les
divisions, les intolérances et les fondamentalismes qui, malheureusement, s'intensifient
aujourd'hui. Le dialogue, qui mène à l'unité, n'oblige pas, mais avance dans le respect de
la liberté de la personne et de la souveraineté de chaque État. Enfin, il s'agit d'un dialogue
sincère et fructueux qui, reconnaissant toute diversité légitime, favorise le respect, la
concorde et la collaboration.
Mots-clés: Personne humaine, Afrique, Fondement métaphysique, Fondement
métaphysique et dialogue.
Premissa
No actual contexto de crescente e incisiva globalização é difícil subtrair-se ao dever ou à
necessidade de prestar conta de si mesmos. Neste clima cultural também a unidade
africana é chamada a justificar-se, ou seja, a justificar o seu direito de continuar a ser. À
primeira vista poderia parecer que a sua justificação não seja hoje um problema, visto que
é cada vez mais difuso o uso do termo unidade e da expressão união africana. Mas urge
reflectir nesta unidade à luz da filosofia para lhe compreender o seu verdadeiro
significado.
Aprendemos com Nicola Abbagnano que «nada do que é humano é estranho à filosofia
[…] aliás esta é o mesmo homem que se interroga a si mesmo e procura as razões e o
fundamento do seu ser».1 Esta é a filosofia na sua adesão à existência humana e ao mesmo
tempo na sua amplitude em relação aos problemas do homem. Não de um homem que
vive no Úrano mas do homem concreto que na sua vida experimenta ânsias e
insuficiências, alegrias e esperanças, tristezas e angústias.2 Portanto, todas as coisas são
susceptíveis de reflexão filosófica, inclusive a própria unidade africana exige filosofar.
De facto, filosofar é examinar a realidade, e isso, de um modo ou de outro, todos fazemos
constantemente. Ao se tentar resolver os problemas globais, sociais ou pessoais, é
impossível se abster da racionalidade. Entretanto há uma gama de situações onde a razão
não pode avançar por falta, ou excesso de dados, o que impossibilita decisões objectivas.
Entra em cena então a parte subjectiva humana, mais especificamente a Intuição, como
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meio de direccionar nosso foco de entendimento e apontar caminhos a serem trilhados
pela racionalidade.
que, actualmente, a filosofia passa por uma perda de identidade. Existe uma verdadeira
inflação do termo filosofia e, como toda a inflação, é sintoma de queda de valores, de
crise difusa e profunda. Hoje o termo filosofia indica muitas vezes coisas difíceis, próprias
do hiperurânio e não o homem que, não aceitando passivamente as informações
fornecidas pela experiência imediata, desenvolve uma postura de questionamento próprio
sobre a realidade, interroga-se a si mesmo e metodológica e ordenadamente procura as
razões e o fundamento do seu ser, buscando, como faziam os gregos, um instrumento
fundamental e o único racionalmente possível, para a solução dos problemas da vida.
A confusão com relação à filosofia, e a desinformação geral, que permeia mesmo o meio
académico, chega a ponto de permitir o surgimento de propostas quiméricas no sentido
de se eliminar a Filosofia. Entretanto, ciência alguma pode se ocupar da macro realidade.
O empirismo não pode ser aplicado à civilização humana, à mente, ao total. Quem
estabelece a comunicação entre todos os segmentos do conhecimento continua a ser a
filosofia. Cremos ser este o quadro em que se deve inserir a reflexão sobre a unidade
africana, que aqui fazemos partindo da metafísica do termo pessoa.
Tal reflexão se torna urgente sobretudo se olharmos para os problemas que cada vez mais
vão desafiando a unidade do continente africano. uma verdade, hoje admitida por
quase todos e até pelos mais preconceituosos arqueólogos, de que a humanidade e a
civilização desenvolveram-se na noite dos tempos no berço deste continente gigantesco
chamado África3.
Temos consciência de que a África é um imenso continente com situações muito diversas;
um complexo e heterogéneo mosaico de povos, línguas, raças, culturas, etnias e religiões,
mesmo dentro das mesmas fronteiras políticas. Embora esta imensidão nos aconselhe a
não fazer generalizações na avaliação dos problemas não nos impede de buscar e propor
soluções aos problemas inerentes à falta de unidade que a nosso ver pode podem assentar
sobre o conceito de pessoa.
1. Breve excursus histórico-filosófico do conceito de pessoa
1.1 A densidade semântico-etimológica do termo pessoa
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A densidade semântica do termo pessoa formou-se no tempo graças ao contributo cultural
de muitos filões de reflexão. O conceito de pessoa tem, pois, um percurso rico, quanto
complexo.
De recordar que na antiguidade greco-romana não se encontra bem claro o conceito de
pessoa. Todavia, seria incorrecto pensar que o conceito de pessoa tenha nascido nos
nossos dias.
Etimologicamente, e segundo algumas pesquisas atentas, os primeiros indícios do termo
pessoa encontram-se no âmbito da cultura etrusca. De facto, o termo phersu, utilizado nos
ritos em honra de Phersepona e que significaria máscara4 passou a significar o indivíduo
mascarado, a personagem que o actor representa no drama, ou seja, o indivíduo humano,
moral e social5.
Nesta senda do indivíduo mascarado, Edith Stein observa que visto que nas comédias e
nas tragédias se representavam personagens famosos, o nome pessoa foi imposto para
significar sujeitos que tinham um papel na sociedade, por isso, alguns definem a pessoa
como «uma hipóstase marcada por uma qualificada conexão com a sua dignidade» 6.
Não encontra fundamento adequado a etimologia proposta por Boécio, que liga pessoa ao
verbo personare, aludindo à amplificação da voz de quem fala por detrás da máscara.
Assim, pessoa é, segundo Boécio, «decta est volvatur sonus» 7. Também não é correcto
afirmar que pessoa seja a contracção de per se una, como quereria a proposta de Alano di
Lilla8.
1.2 O percurso evolutivo do conceito de pessoa
Com Cícero e Séneca, a evolução do conceito de pessoa deu passos importantes sem,
contudo, chegar à definição hodierna.
Do segundo século em diante, o conceito de pessoa entra no uso corrente, na onda do
esforço de clarificação exigida pelas controvérsias teológicas sobre o dogma trinitário.
Porém, foi com Boécio que o conceito de pessoa adquire o actual conteúdo teórico. E isto
no contexto da clarificação conceitual sobre as questões teoréticas que emergiam da
doutrina sobre a Trindade.
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Segundo Boécio «persona est rationalis naturae individua substantia» (pessoa é
substância individual de natureza racional) 9. Boécio elabora esta definição, servindo-se
do património filosófico grego e latino. De facto, ele sistematiza os conceitos latinos de
persona, natura e substantia, estabelecendo uma equivalência com os vocábulos gregos
πρόσωπον, ούσία, ύπόστασις que na oscilação terminológica do tempo eram usados de
maneira equívoca e confusa.
Com Boécio, a natura toma definitivamente o lugar de ούσία, entendida como essência,
e substantia passa a traduzir o grego ύπόστασις10. São poucos os filósofos que, no
medievo, não tinham encontrado a definição de Boécio satisfatória, porque essa
interpretava a realidade que se tentava definir, precisando-lhe o significado.
Esta definição, pessoa é substância individual de natureza racional que, durante o
medievo, faz cultura e caracteriza a tradição teológica latina, surge sob o impulso das
disputas contra os nestorianos, os quais sustentavam que, em Cristo havia duas naturezas
e duas pessoas em união permanente e moral; e contra os monofisistas que sustentavam
a existência em Cristo de uma só natureza, a divina11.
Na definição de Boécio, o termo pessoa tem um sentido mais específico e refere-se à
estrutura fundamental e metafísica do indivíduo, ou seja, à substância individual dotada
de uma natureza racional. Quer dizer, nem todos os seres naturais são pessoas, mas apenas
aqueles substanciais.
Por isso, a pessoa é substância individual. É individual porque tem características que a
distinguem dos outros indivíduos da mesma espécie; características que não são
definíveis nem comunicáveis aos outros. É substância porque é existente em si, por si e
em nenhum outro. Dizer substância individual significa, portanto, dizer que a pessoa não
tem necessidade, para existir, de aderir a um outro ser, e contém no seu quid alguma coisa
de incomunicabilidade, que divide com nenhum outro12.
A pessoa é igualmente de natureza racional. O seu conhecer não é impresso na matéria,
nem é limitado por essa. Dizer natureza racional significa, por isso, que a pessoa não
exerce as actividades conexas à natureza, mas tem a capacidade de desenvolvê-las,
capacidade possuída por natureza, ou seja com o nascimento13. A pessoa é, pois, o gau
mais elevado de ser substancial, porque essa é consciente do seu ser substância individual.
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Toda a pessoa é, portanto, antes de mais um indivíduo. Mas ao mesmo tempo, muito mais
que indivíduo, porque não é uma personagem, mas uma substância individual, que possui
em si uma certa dignidade em razão da sua racionalidade. Por isso, não basta afirmar que
a pessoa é algo de individual e nem mesmo que é uma substância ou uma natureza, para
defini-la do ponto de vista metafísico.
Visto que a individualidade é acidente, isto é, pertence àquilo que existe como perfeição
e é característica de um sujeito, e enquanto a substância e a natureza indicam o que é
próprio da espécie, ocorre a substância individual de uma natureza racional, para que
exista pessoa. Ocorre, portanto, que se refira a uma substância individualizada de um ser
racional, para que exista pessoa do ponto de vista metafísico. Somente um ser racional
pode corresponder à dignidade de pessoa, porque pessoa é, enfim, um ser em si, que não
pode ser substituído por um outro e que é capaz de operações próprias e racionais.
Revisitando o pensamento precedente e partindo do esquema e da fórmula de Boécio, São
Tomás elabora a sua definição de pessoa como «subsistens in rationali natura» 14.
Com a fórmula subsistens in rationali natura, São Tomás evidencia não o aspecto
comum pressuposto universalmente aceite da pessoa assim como expresso pela
substância individual da definição de Boécio, mas evidencia sobretudo aquele individual,
isto é, o existente considerado na acepção mais própria, ou seja o seu ser único e
irrepetível. De facto, na definição de Boécio a substância individual, parece ser concebida
como individualidade. A individualidade, porém, é determinação da coisa e não ainda do
quem; é uma conotação natural da pessoa e não da mesma pessoa.
São Tomás condensa o conceito de pessoa nos termos subsistente e racional para indicar
o que de mais nobre e perfeito no universo; e por isso afirma: «persona significat id
quod est perfectissimum in tota natura, scilicet subsistens in rationali natura» 15.
Pessoa é a natureza racional que existe num indivíduo concreto. Por isso, somente aquilo
que é subsistente numa natureza racional pode ser chamado pessoa. E é o subsistir de
maneira individual na natureza racional que confere a dignidade à pessoa, ou seja, «quia
magnae dignitatis est in rationali natura subsistens ideo omne individuum rationalis
naturae dicitur persona» 16.
De tudo isto emerge que a nobreza da pessoa humana não é a abstracta razão como
parece indicar a natureza racional da definição de Boécio mas a racionalidade possuída
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por um subsistente, ou seja, de um ser concreto. E este em virtude de um actus essendi
próprio, que confere actualidade à substância e às suas determinações. Tudo isto que a
pessoa sabe, quer e faz, brota do próprio acto em virtude do qual é aquilo que é.
Da elaboração de São Tomás compreende-se essencialmente o carácter racional da
pessoa; racional enquanto capaz de ser consciente do próprio ser17. A pessoa é todo o
indivíduo de natureza racional, livre, atravessado por tradições e culturas, responsável,
relacional, inteligente, volitivo, dialogante e por isso, fundamento de unidade entre
indivíduos e povos.
2. Do conceito da pessoa à construção da unidade africana
Antes da conquista das independências os colonos procuravam inflamar as diferenças
fechando as colónias em si mesmas, num clima de reserva ciumenta, de distância e quase
de desconfiança. Com as independências os encontros entre países antigamente
colonizados se multiplicaram e o clima tornou-se de abertura e de colaboração. E com a
criação da Organização da Unidade Africana (OUA), que veio desempenhar o papel
extremamente precioso de lugar de encontros, de órgão de diálogo e de troca de
experiências entre Chefes de Estado e de Governo africanos, o esforço para a unidade se
exprimiu de modo mais visível.
Contudo, a vocação à unidade é uma característica natural da pessoa humana porquanto
esta é essencialmente livre, relacional e dialogante. E enquanto essencialmente
relacionais e dialogantes existem nos homens aqueles elementos comuns que constituem
a sua natureza e que os distinguem das outras espécies de seres. Todos os homens têm as
mesmas tendências e exigências fundamentais quanto ao anélito da unidade. Todo o
homem é chamado à comunhão e está aberto à comunicação e ao diálogo.
O homem é capaz, pois, de intercâmbio, de dar-se aos outros e deles receber, porque a
sua natureza o abre à comunhão, à comunicação e à unidade. A sua natureza relacional e
dialogante não é apenas uma necessidade mas é sobretudo um dom que o ambiente que o
impede de continuar fechado e isolado no egoísmo e aberto aos conflitos. De facto, o
homem é aquilo que é pela sua inconfundível individualidade, mas também pelo seu ser
aberto ao outro e às realidades extrínsecas, por causa da sua sociabilidade. A sociabilidade
é, pois, uma expressão da sua humanidade, e a unidade, uma sua actuação.
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Por isso, a unidade africana pressupõe a união consciente entre africanos, e o comum e
orgânico esforço, para conseguir o bem humano integral. A unidade africana, na base da
descoberta da comum humanidade, articula-se na corresponsabilidade generosa de todos
para com todos, e em cada povo africano tomar sobre si as dificuldades e os problemas
dos outros povos do continente para alcançar o bem comum18.
Enfim, a unidade encontra a sua raiz na essência metafísica da pessoa humana e exprime,
por conseguinte a estrutura ontológica dos africanos e diz respeito à própria possibilidade
da sua realização. Por isso, as divisões e os conflitos lupescos não fazem parte da
normalidade africana.
Portanto, apesar de África ser um imenso continente com situações muito diversas; um
complexo e heterogéneo mosaico de povos, línguas, raças, culturas, etnias e religiões,
mesmo dentro das mesmas fronteiras políticas, o continente africano explica-se como
unidade na diversidade. E enquanto africanos reconhecemos que a unidade nos é
garantida metafisicamente pela origem, pelo facto mesmo de sermos africanos do Cabo
ao Cairo, de Dar es-Salaam a Dakar mas sobretudo pelo facto de sermos pessoas
humanas.
O fundamento metafísico de origem representa uma unidade indivisível na realidade
histórica, uma força inspiradora e enriquecedora para os africanos que pode mesmo
superar as diversidades presentes nos Estados africanos, a incomunicabilidade geográfica,
a hipocrisia, as tensões e os desejos separatistas, e conduzir a um compromisso claro entre
os africanos, respeitando as suas diversidades e os seus interesses recíprocos;
empenhando num projecto comum para uma África mais humana e mais social, em que
reinem sempre o respeito mútuo, o reconhecimento e a protecção dos direitos humanos
fundamentais e se faça valer o lado melhor dos africanos, os valores basilares da paz, da
justiça, da liberdade, da tolerância, da participação e da solidariedade. Este fundamento
metafísico de origem é importante porquanto em todos os campos tudo o que une os seres
humanos é mais forte do que o que os separa.
Contudo, a unidade africana deve ser construída e aprofundada de forma dinâmica e
incessante, porque os pressupostos da união, representados pelos factores geográficos;
pela multiplicidade das tradições regionais, nacionais, culturais e religiosas; pelos
interesses económicos, trocas económicas pacíficas e seguras; pela herança e tradições
socioculturais africanas mais autênticas, em si o bastam para criar a união política. É
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necessário voltarmos à metafísica da unidade e reelaborar juntos a história da África que
além das muito boas experiências de unidade é ainda caracterizada, nalguns casos, por
desentendimentos, lutas fratricidas entre etnias e até por conflitos bélicos.
Com razão, Kwame Nkrumah, apelava, na sua obra A África deve unir-se, à unidade, não
tanto para indicar a necessidade ou condição de estar unidos, mas sobretudo o acto de se
unir porque os pressupostos geográficos e económicos, por si só, não bastam para criar a
união. Ocorrem instituições vinculativas bem como vontade e consciência de pertença, a
um mesmo continente chamado África. A consciência deve preceder à formação política
da unidade africana que não se poderá alcançar de forma duradoira sem valores comuns.
Outrossim, ocorre recordar que a unidade é em si um bem somente quando é ordenada,
quando responde à razão objectiva da verdade, da justiça e do bem. O mesmo é dizer que
a unidade é um bem que vale tanto quanto respeita o que de valor nas partes que a
compõem.
A unidade perde valor quando se realiza de modo maciço, esmagador, absoluto,
destruidor e totalitário abolindo o espaço que permite o diálogo, destruindo desta forma
a esfera em que os homens agem, tomam decisões comuns e operam colaborando. Por
isso, sem liberdade nem diálogo a unidade africana seria impossível porque a África não
seria mais o espaço onde cada indivíduo aos outros as próprias capacidades em vista do
bem comum, segundo princípios de igualdade substancial. Neste sentido a África seria
um conjunto de indivíduos e por conseguinte um conjunto de Estados sem laços entre si.
Cada um veria o outro não como um semelhante, com quem é chamado a relacionar-se e
tomar iniciativas, mas um inimigo de quem se defender.
Enfim, para reconstruir a unidade africana deve-se partir da pessoa humana e ocorre uma
política que envolva todas as pessoas e forças a todos os níveis na busca do bem comum,
ou seja, na busca daquele conjunto de elementos essenciais que respondem às exigências
intrínsecas e imutáveis da natureza humana. Trata-se, pois, de condições económicas,
jurídicas, morais e religiosas que tornam possível e favorecem o conseguimento pleno e
fácil do desenvolvimento integral das pessoas.
As exigências históricas e os significados de unidade são sempre mutáveis. Mudam
conforme se entenda o que leva os homens a unirem-se, a nível ontológico e histórico, ou
seja, consoante a efectiva existência daquele princípio originário em cada homem e povo
ou consoante o plano social, político, religioso e cultural em que se actua a unidade. De
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facto, não poucas vezes, os próprios acontecimentos históricos e as próprias diferenças
exigem que se redefinam os instrumentos políticos para construir uma nova ordem
inspirada numa nova filosofia de relações entre povos e Estados, que vão além do que no
passado não foi possível. Tais diferenças podem provir de uma profunda oposição e de
uma divergência quanto ao fim. As diferenças podem provir também de uma dupla visão
de um mesmo objectivo. Seja qual for a origem das diferenças a atitude sadia é
compreender as realidades e promover o diálogo e ver como as próprias diferenças
permitem situar melhor o objecto.
Por isso, é mister que nos diversos âmbitos, questões e temas sobre os quais incumbe o
risco da divisão, os africanos usem a mesma linguagem e falem a uma só voz, cultivando
e empenhando-se intensa, livre e conscientemente ao diálogo.
O diálogo é fundamental para a vida política sobretudo quando exerce a função da busca
da verdade e do bem. No caso da África o diálogo torna-se uma exigência insubstituível
para superar as divisões, intolerâncias e fundamentalismos que, infelizmente se vão
intensificando na actualidade. O diálogo é igualmente fundamental para superar os
preconceitos e desentendimentos históricos, culturais, raciais, sociais e religiosos e
promover e concretizar a unidade, a justiça e a paz, não por causa do pluralismo étnico,
cultural, racial, social e religioso do continente, mas sobretudo por causa do seu
pluralismo político, pois, através do diálogo cada indivíduo ou povo enriquece o próprio
ponto de vista e converge para as noções de verdade e de bem humano e se empenha a
potenciá-las corresponsavelmente para a unidade.
O diálogo é também essencial para a unidade política, social e económica e o
desenvolvimento integral dos povos e dos Estados africanos, pois, tal como os povos
também os Estados têm necessidade uns dos outros para se encontrarem a si próprios e
no encontro com os outros se realizarem plenamente. Por isso, o isolamento seria um
impedimento insuperável para a unidade e a realização do próprio continente africano.
Tal diálogo deve basear-se em valores, princípios e normas aceites, e deve ser assegurado
por um sistema constitucional e de direito; pela promoção da justiça, da paz e da liberdade
para o continente africano; pela experiência da verdade e pela busca constante de
compreensão dos fundamentos que têm plasmado a União Africana.
O diálogo não se processa sem dificuldades e é alcançável através da discussão e
argumentação; é reconhecível por todos a partir de um comum confronto que se funda
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sobre a dignidade pessoa humana e é possível a diversos níveis: no plano da experiência
quotidiana para as questões sociais, comunitárias, familiares, éticas e ecológicas; no plano
do encontro das culturas para o respeito e o melhor conhecimento recíproco; no plano
desportivo para o cultivo do sentimento de pertença a um todo continental; no plano
político para questões que dizem respeito à segurança económica, cultural e jurídica; no
plano militar para questões que dizem respeito à garantia da segurança e integridade
territorial bem como à erradicação de conflitos em África.
Trata-se de um diálogo gradual e sempre pronto a recomeçar. Um diálogo que não obriga,
mas se move no respeito da liberdade pessoal e civil e da soberania de cada Estado; trata-
se de um diálogo que o é apenas instrumental nem nasce de tácticas ou de interesses,
mas um diálogo sincero e fecundo que reconhecendo toda a legítima diversidade promove
o respeito, a concórdia e a colaboração.
Enfim, trata-se de uma actividade que apresenta motivações, exigências e dignidade
própria e implica um mútuo esforço de compreensão por parte dos interlocutores que se
compreendem verdadeiramente quando descobrem, além dos laços que os unem e os
integram uns aos outros e dos valores a eles comuns, as razões ideais em que cada um
deles se inspira para realizá-los.
Outrossim, tal diálogo destina-se a produzir efeitos extraordinariamente benéficos, como
o aumento da maturidade dos africanos numa penetração mais autêntica da complexa
realidade do mundo hodierno em que a África se move a resolução dos problemas, a
superação dos desafios relacionados com a unidade e a luta pela prosperidade e felicidade
de todas as nações bem como pela segurança e bem-estar do continente africano.
Tudo isso levanta muitos e difíceis problemas de ordem económica, social e política.
Porém, está de facto que diante das diferenças e dos antagonismos que o continente
africano vive actualmente, a consciência da comum humanidade e o diálogo franco,
lúcido e proveitoso pode permitir construir um caminho de tolerância e aceitação mútuas
para a realização de uma convivência respeitosa e articulada na reciprocidade sobre o
fundamento da dignidade da pessoa humana, da mobilidade interna, da integração sócio-
económica do continente e do florescimento de um mercado interno. Isto fará também
com que os africanos não sejam meros fornecedores de matérias-primas aos outros
continentes e consumidores de produtos estrangeiros, mas produtores e consumidores de
produtos do seu próprio continente.
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Um diálogo não inibido por complexos de superioridade ou de inferioridade, mas um
diálogo franco na base da consciência de pessoas humanas e do respeito recíproco. De
facto, sem diálogo franco não há progresso porquanto o progresso é liberdade, e somente
a verdade que pode exprimir-se nos torna livres.
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